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2 de novembro de 2015

Finados de minha Infância

Cruz1

Desde criança tenho certa vocação por gostar desse dia dedicado aos mortos.
Um sentimento de respeito e curiosidade. Era comum no Finados irmos todos ao cemitério visitar os mortos, fazer orações, acender velas e falar bem deles.
Eu ficava bastante eufórico com a data. Achava importante ir ao cemitério e ter alguém bom para visitar.
Todos que estavam ali visitando seus mortos, alguns chorando e outros em profundo silêncio, eram pessoas conhecidas e respeitadas em nossa pequena cidade de Jerônimo Monteiro. Alguns eram pessoas bem mais ricas(Os patrões, o prefeito, os médicos…) e outros mais pobres(Eu e o povão em geral); ali não tinha disso: todos eram iguais e se abraçavam, cumprimentavam com palavras respeitosas, sempre curtas pra não quebrar o silêncio. Um lugar que me deixava em paz e reflexivo!
As pessoas estavam sempre perto de alguma cruz e muitos tinham uma foto do seu ente querido e letras com seus nomes e datas do período que viveu na Terra…
O que lembro muito bem é que sempre eram pessoas que eles gostavam muito. As histórias não me deixavam nenhuma dúvida: só os bons morriam; fizeram-me acreditar que só os melhores exemplares estavam enterrados ali naquele lugar. Por isso minha relação com os mortos sempre foi boa e tranquila.
Confesso que ficava meio triste porque ninguém nosso morria. Eu não tinha ninguém pra visitar… Entrava e saía anos e só os outros morriam e seus parentes tinham histórias boas para contar no cemitério. Eu não tinha ninguém e com isso nem chorava. Achava importante chorar, mas eu não chorava. Como não tinha ninguém nosso para visitar, visitava a todos… Ficava por horas passeando ali e pensando nos mortos, lendo os nomes, calculando as idades… Um sentimento bom me acompanhava naquele dia. Cresci assim, tendo o cemitério como uma recompensa para as pessoas que venceram na vida; lugar onde só moravam aqueles que tinham sido promovidos a morte. Morrer era um estágio inimaginável. Tinha que saber viver para morrer direito. Eu não sei se sabia morrer – passavam essas coisas em minha cabecinha de criança!
Sempre que me batia alguma tristeza ou mesmo algum aborrecimento pensava comigo: Ainda irei morrer e morar lá no morro do cemitério. Lá serei bem mais importante. As pessoas não irão me aborrecer e ainda falarão bem de mim.
Este sentimento de que o cemitério é um lugar de paz, de igualdade entre as pessoas – um lugar de oração – me acompanhou desde sempre!
Cada cidade que visito, até hoje, gosto de conhecer o cemitério. Ele continua sendo para mim um lugar incrível de oração, de gente querida e amada por todos.
Aprendi, desde criança, que morrer era só para os fortes; para aqueles que já completaram sua missão aqui na Terra…!

Foto extraída do Google


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